Para ler enquanto o trem ainda não chega.
A escada rolante desce com um rangido constante. O corrimão está úmido em alguns pontos. Alguém passa a mão e seca na calça logo depois. O ar do metrô é frio demais para o horário.
Perto da plataforma, um cabelo ainda guarda umidade recente. Um frasco pequeno sai da mochila. Espirra direto no cabelo. O produto é espalhado com dedos e aplicado rápido, sem espelho. Um fio cai sobre a testa e fica ali.
O painel acende o tempo de espera. Dois minutos. Depois três. O número muda e volta. Um aviso sonoro ecoa e some. As pessoas se aproximam da faixa amarela e recuam quase juntas.
Um guarda-chuva fechado pinga no chão. A poça cresce e depois para. Um pé desvia por pouco. Outro pisa dentro e deixa marcas no piso cinza. O som de passos se mistura ao vento do túnel.
Duas pessoas dividem o mesmo espaço perto da porta indicada. Uma ajeita a mochila molhada. A outra seca as mãos na barra da camisa. Um cheiro leve de banho recente permanece entre elas quando alguém passa rápido demais.
O trem entra na estação e empurra o ar para frente. O vento levanta fios soltos e bagunça o que estava no lugar. Uma das pessoas segura o cabelo com a mão por reflexo. A outra dá um passo para abrir espaço.
As portas se abrem. A fila avança e para. Um aviso pede atenção. Alguém entra. Outro espera. As duas ficam lado a lado por um instante maior do que o necessário.
O sinal sonoro recomeça. As portas ainda não fecham.
Crônica da Vê
Vê de Verdade
