Para ler enquanto algo ainda está em espera.

A máquina de lavar termina o ciclo com um estalo seco. A tampa é aberta e o vapor sobe rápido. Roupas ainda quentes são retiradas uma a uma e colocadas no cesto azul. 

Perto da pia coletiva, alguém lava as mãos com cuidado. A torneira pinga depois de fechada. Uma gota cai fora do ralo. Outra acompanha. O som se repete. Um frasco pequeno é apoiado na borda da pia. A tampa gira e fecha sem clique.

Do outro lado da lavanderia, outra máquina começa a girar. O barulho ocupa o espaço. Um cabelo ainda úmido é preso rápido com um elástico. Um fio fica solto e gruda na lateral do rosto. Não é retirado.

As cadeiras de plástico estão quase todas ocupadas. Sacolas abertas mostram roupas dobradas e outras ainda por dobrar. Alguém confere o tempo no painel da máquina. Outro ajusta o timer de novo, mesmo sem necessidade.

Uma camisa molhada cai do cesto e toca o chão. É recolhida e torcida ali mesmo. A água pinga entre os pés. Um pano é estendido sobre a mesa para secar melhor. O pano não cobre tudo.

As duas pessoas acabam paradas perto da mesma máquina esperando espaço abrir. As mãos quase se encontram ao mesmo tempo. Uma recua primeiro. A outra continua. 

A torneira volta a pingar. O som atravessa o silêncio curto entre um ciclo e outro. Um cheiro leve de produto misturado com roupa limpa permanece no ar fechado.

Um alarme apita. A máquina termina. Ninguém se move de imediato. O aviso se repete. Uma tampa é aberta. O vapor sobe de novo.

Lá fora, o céu muda de cor sem aviso. O chão da lavanderia começa a secar em partes. A poça diminui, mas não desaparece.

Uma das pessoas fecha a sacola e segura pela alça. A outra ainda dobra a última peça com cuidado maior que o resto. O alarme de outra máquina começa a tocar.

Ninguém sai ainda.

Crônica da Vê