Para ler enquanto a cidade ainda se organiza.

A água do chuveiro para de correr. O vapor permanece no banheiro por alguns segundos. A toalha é puxada do gancho e envolve o corpo sem cuidado. O espelho segue embaçado.

No quarto, a janela fica entreaberta. O ar da manhã entra fresco. O cabelo ainda molhado marca a camiseta em pontos irregulares. Um frasco é aberto sobre a cômoda. O pump é pressionado uma vez. Depois outra. As mãos espalham o produto rápido, como gesto conhecido.

Na cozinha, a chaleira começa a fazer barulho. A luz é acesa só pela metade. Uma caneca espera sobre a pia, ainda com gotas da lavagem da noite. A água esquenta e para antes de ferver. A chaleira é retirada do fogo.

Do outro lado da parede, alguém também acorda. O som de um chuveiro começa e depois diminui. Um móvel é arrastado. Uma porta encosta e fecha.

A caneca recebe a água quente. Um fio de vapor sobe e se dissolve. A colher gira uma vez. Duas. Para. A toalha agora está dobrada sobre a cadeira, úmida em uma das pontas.

No corredor do prédio, o chão de porcelanato reflete a luz branca do teto. Marcas de passos aparecem e desaparecem conforme alguém avança. Uma gota cai do cabelo recém-seco às pressas e se espalha antes de secar.

A porta do elevador se abre. Duas pessoas entram quase juntas. Uma segura a porta enquanto a outra ajeita a mochila no ombro. O botão é pressionado. O painel acende.

O elevador desce devagar. O silêncio ocupa o espaço. Um fio de cabelo cai sobre a gola e é empurrado para trás com o dorso da mão. O cheiro leve de produto permanece no ar fechado.

No térreo, a porta se abre. O dia ainda está claro demais para o horário. A rua está vazia. A calçada guarda poças da chuva da madrugada. As duas pessoas caminham lado a lado por alguns passos.

Uma delas diminui o ritmo para ajustar o cadarço. A outra para também. A água acumulada na sarjeta escorre devagar. Um ônibus aparece ao longe, ainda distante.

O cadarço é ajustado. As duas voltam a andar. O sinal fecha mesmo sem carros. A rua permanece aberta.

Crônica da Vê